O brincar é extremamente importante no desenvolvimento humano, principalmente durante a infância. Até pouco tempo, ainda no início do século passado, a brincadeira era desvalorizada e esquecida, julgada por muitos como um simples passatempo, sem função nenhuma além de simplesmente entreter e divertir a criança. Com o surgimento de novas pesquisas na área, houve uma grande mudança sobre a percepção do brincar, e a sua real importância no processo de desenvolvimento de uma criança. Mais do que uma “simples diversão” o brincar é essencial para o desenvolvimento da criança. Através do brincar, ela adquire capacidades e aprendizados importantes como: a atenção, a imitação, a criatividade, e a imaginação. Ao brincar as crianças as crianças se colocam em situações diferentes, muitas vezes, no lugar de um adulto, assim refletem sobre os papéis sociais e sobre regras da sociedade.
Segundo Winnicott,
“A criança adquire experiência brincando. A brincadeira é uma parcela importante da sua vida. As experiências tanto externas como internas podem ser férteis para o adulto, mas para a criança essa riqueza encontra-se principalmente na brincadeira e na fantasia.” (1981, p. 161).
A brincadeira em si, tem uma conexão com os quatro pilares da educação, e potencializa o desenvolvimento, já que assim, aprende a conhecer, aprende a fazer, aprende a conviver e, sobretudo, aprende a ser. Além de estimular a curiosidade, a autoconfiança e a autonomia, proporciona o desenvolvimento da linguagem, do pensamento, da concentração, e da atenção.
É comum também, que ao brincar as crianças mostrem suas angústias, aflições, ansiedades, agressividade e medos, sem temer a censura dos adultos. A brincadeira faz com que as crianças ultrapassem a realidade, transformando-a a partir da imaginação. É desta forma que expressam seus desejos e necessidades, o que, teriam dificuldades utilizando-se somente da expressão oral.
Maluf corretamente afirma que
“Na brincadeira a criança tem a oportunidade não apenas de vivenciar as regras impostas, mas de transformá-las, recriá-las de acordo com as suas necessidades de interesse e ainda entendê-las. Não se trata de uma mera aceitação, mas de um processo de construção que se efetiva com a sua participação.” (2010, p.6).
O adulto deve estimular a criança, por meio da brincadeira, para que a mesma desenvolva a sua imaginação e desperte o interesse para novos questionamentos de forma que elas mesmas procurem soluções para os problemas, e formulem novas regras para as brincadeiras. O adulto, quando brinca com a criança, reforça seus laços afetivos com a mesma. Assim, ao brincar com uma criança está demonstrando todo o seu amor e a criança, subentende exatamente da mesma forma, ela se sente amada. Todas as crianças gostam de brincar com crianças mais velhas, avós, pais, primos, professores e irmãos. A participação do adulto na brincadeira eleva o nível de interesse, enriquece e estimula a imaginação dos pequenos, contribuindo para o esclarecimento de dúvidas referentes a regras das brincadeiras. Ela sente-se ao mesmo tempo prestigiada e desafiada.
Conforme a teoria de Piaget, o brincar apresenta características diferentes para cada faixa etária do desenvolvimento infantil. Dos 0 aos 2 anos de idade a criança vai adquirindo competências motoras e aumenta a sua autonomia. Começa a preferir o chão ao berço, demonstra muitas tentativas na imitação da fala e revela prazer na descoberta do seu corpo através dos sentidos. Elabora suas brincadeiras com a exploração de objetos ou brinquedos, por meio dos sentidos, da ação motora e da manipulação. Podemos chamar esta fase da fase da descoberta e exploração, constituindo a etapa fundamental para o desenvolvimento global da criança.
Entre dois e seis/ sete anos de idade, a simbologia surge com um papel fundamental nas brincadeiras, como são exemplos: “o faz de conta”, as histórias, os fantoches, o desenho e os contos de fada. Os jogos simbólicos são importantes nessa fase, pois oferecem a criança, a compreensão e a aprendizagem dos papeis sociais que fazem parte da sua cultura, seja qual for ela, por exemplo (o papel do pai, da mãe, do filho, médico ou tio).
A partir dos sete anos de idade, as brincadeiras e jogos se tornam cruciais para o desenvolvimento de estratégias, amadurecimento e tomada de decisões. Através da brincadeira a criança aprende a seguir regras, experimenta formas de comportamento e socializa, descobrindo o mundo a sua volta. Ao brincar com outras crianças, elas encontram seus pares e interagem socialmente, descobrindo, dessa forma que não são os únicos sujeitos da ação, abandonando aos poucos o egocentrismo predominante nessa fase.
Nos jogos com regras os processos desenvolvidos são outros, uma vez que, nestes o controle do comportamento impulsivo é diferente e necessário. É a partir das características específicas de cada jogo que a criança desenvolve as competências para adaptar o seu comportamento, distanciando-o da impulsividade.
Aos seis/sete anos de idade, as crianças já estão em fase escolar, ingressando no 1º ano do ensino fundamental. Com toda a importância do brincar no desenvolvimento infantil, ainda hoje, nas escolas, a brincadeira está ausente das propostas pedagógicas. Uma crítica nesse sentido é feita por Maluf, que afirma que:
“É rara a escola nesse aprendizado. A escola simplesmente esqueceu a brincadeira, na sala de aula ou ela é utilizada com um papel didático, ou é considerada uma perda de tempo. E até no recreio a criança precisa conviver com um monte de proibições, como também ocorre nos prédios, clubes, etc.” (2010, p.1).
O lúdico e a brincadeira podem e devem ser parceiros do professor. O brincar deve ocupar um lugar importante na prática pedagógica, tendo, a sala de aula como um lugar privilegiado. Existem diversas maneiras de trabalhar jogos e brincadeiras nas práticas pedagógicas, tais como: Contar e ouvir histórias, dramatizar para trabalhar história, literatura e português. Além disso, o professor pode utilizar jogos desafiadores, como é o caso do jogo de cartas (general), como estratégia para aprendizagem da matemática, e outras atividades, fazendo assim com que as crianças aprendam por meios mais prazerosos.
Equivoca-se a escola em dividir o ambiente escolar em lados opostos, de um lado a brincadeira, a fantasia e o jogo, do outro o mundo sério da escola, do trabalho e dos estudos, sendo que o ideal é conciliar os dois.
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