quarta-feira, 3 de novembro de 2010

DIA DAS MÃES NA ESCOLA

Algumas práticas são tão arraigadas que, por mais que a razão tenha bons argumentos contra elas, o máximo que se consegue é interferir nos detalhes.
Uma dessas práticas que particularmente entendo abominável é a celebração escolar do dia das mães. Que o comércio infle esta data com suas apelações sentimentais e descoladas da realidade, entende-se. O comércio quer lucrar.
Mas o que queremos na escola com a celebração do dia das mães? Estaremos por acaso alienados do fato de que as mães não são estes seres inefáveis, leves, sempre cheias de carinho e tempo para doar? As mães são seres reais, iguais a todos os outros seres reais e, assim, portadoras de contradições, de dúvidas, de equívocos, elas contêm em si o bem, mas também o mal, e toda a cadeia infinita de valores que se estendem estes dois pólos extremados, elas são capazes de atos louváveis e de atos deploráveis, e todos os demais atos entre estas balizas, que por sua vez não são tão claras. Como qualquer pessoa. Mesmo e sobretudo em relação aos filhos, as mães erram, as mães falham. Isso quando as mães existem, porque a estatística dos órfãos e das crianças abandonadas nos dói tanto que preferimos viver como se ela não existisse.
As mães são como conseguem ser numa sociedade que cobra mais do que oferece, e que estabelece pactos cínicos de não enfrentar a realidade, sempre maquiando-a: de um lado, pelos setores interessados em ganhar, de outro lado, as pessoas aceitando negar as verdades.
E assim todo ano, a escola faz sua celebração vazia e aflitiva. Quanto mais louvar a mãe fizer sentido para uma criança (que tiver a sorte de ter uma mãe disponível, equilibrada, sensata, sempre amorosa que distribui seu afeto com as devidas noções de certo e errado, direito e dever), mais os colegas vão pensar que vivem na exceção e que, a não perceber equivalência com a sua mãe (se ela existir), sentir-se-ão diminuídos e infelizes com a mãe real.
Essa mesma crítica vale para as tentativas de amortizar o efeito dia das mães, substituindo-o por dia do cuidador ou dia da família. Dá-se o mesmo. Fosse uma data que, no lugar de homenagear o vazio e/ou servir ao consumo, que servisse para pensar a condição humana, seria ótimo. Mas, como o comércio nunca instituirá o dia de pensar a condição humana, seguiremos atendendo ao desejo de quem adora nos ver consumir e despender nosso tempo trabalhando mais para ganhar mais para comprar mais. E, claro, pensando cada vez menos.

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